YEMANJÁ
YEMANJÁ é considerada mãe
de todos os demais ORIXÁS OGUM, XANGÔ, OBÁ, OXOSSI e OXUM que
nasceram de caso ilícito que teve com IFÁ. NANÃ como vimos, é mãe
de OMULU e OXUMARÉ. YEMANJÁ, por sua vez, filha de OLODKUN, ORIXÁ
masculino em BENIN, ou feminino em IFÉ, sempre do mar. No Brasil, é
muito venerada, e seu culto tornou-se quase independente do
CANDOMBLÉ. É representada como uma sereia de longos cabelos
pretos.
Rege a maternidade, e é a
mãe dos peixes que representam fecundidade. Seu dia à sábado. Nas
grandes "obrigações", são oferecidos cabra branca, pata ou galinha
branca.
Gosta muito de flores e é
costume oferecer-lhe sete rosas brancas abertas, que são jogadas ao
mar para agradecimento.
Sua cor é a branca com
azul. Usa um ADÉ com franjas de miçangas que esconde o rosto. Leva
na mão o BÉBÊ -- leque ritual de metal prateado de forma circular,
com uma sereia recortada no
centro.
0 tipo psicológico dos
filhos de YEMANJÁ é imponente, majestoso e belo, calmo, sensual,
fecundo e cheio de dignidade e dotado de irresistível fascínio (o
canto da sereia).
As filhas de YEMANJÁ são
boas donas de casa, educadoras pródigas e generosas, criando até os
filhos de outros (OMULU).
À deusa das águas recorrem
as mulheres que não conseguem
engravidar.
Porque é Iemanjá quem
controla a fertilidade, simbolizada em seu corpo robusto, forte, em
seus seios volumosos e na aparência
sensual.
Qualidades, aliás, de todas
as suas filhas, que se revelam excelentes como donas de casa,
educadoras e mães. Não perdoam facilmente, quando
ofendidas.
São possessivas e muito
ciumentas. Embora se mostrem tranquilas a maioria do tempo, podem
se tornar verdadeiras feras quando perdem a
paciência.
Mais do que isso, não
perdoam ofensas com facilidade. Intrometem-se tanto na vida dos
familiares que chegam a sufocar.
Mas a intenção é sempre das
melhores.
YEMANJÁ, por presidir a
formação da individualidade, que como sabemos está na cabeça, está
presente em todos os rituais, especialmente o
BORI.
O mais popular e universal
de todos os orixás das àguas: Iemanjá (nagôs), Dandalunga
(angolas), Kaiala (congos); também chamada Janaína e Dona Janaína,
Princesa de Aiucá e, nos candomblés-de-caboclo, Sereia
Mukunã.
REGÊNCIAS
AXÉ
Conchas e pedras marinhas, numa vasilha de porcelana azul.
Insígnias: uma espada de folha-de-flandres e uma espécie de leque
circular, também de folha-de-flandres, com adornos e, no centro,
uma sereia recortada.
NATUREZA
mar, foz de rios, enseadas,
baías.
METAL
prata
PEDRA
água-marinha
PERFUMES
Fleur de Rocaille, lírio,
Syntoma.
COMO USAR
passar no corpo todo antes do banho de mar, ou tomar banho de sal
grosso, lavar-se e passar um a cada
sábado.
COR
azul-claro e prata.
COLAR
contas de vidro transparentes, ou fio de miçangas pingo
d’água lavado em água de águas
marinhas.
SACRIFÍCIOS: cabra,
galinha, conquém (galinha-d’angola) e pato. Gosta de acaçá e
de milho branco cozido (ebó) com azeite, cebola e
sal.
DIA RITUAL: sábado,
juntamente com Oxun.
FESTA
8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, com quem está
sincretizada.
Anuncia sua presença com o
grito: him hiymim!
SAUDAÇÃO
odôiá!
YEMANJÁ era uma deusa do
rio de igual nome, que banha o território da nação iorubana de
Egbá. As guerras fizeram com que o povo dessa nação fosse tangido
para as margens do rio Ogun, cujo nome nada tem a ver com o orixá
do ferro e das artes manuais. E foi deste rio que a grande iyabá
partiu, para ser rainha do mar.
Mitos nagôs explicam como
Yemanjá, graças a poderes mágicos, foi morar no oceano, reino de
Olokun, seu pai. Aliás, essa mudança de deusa fluvial em deusa
marítima tem sua implicação sociológica. O homem, como explorador,
principiou, em rudes canoas, a singrar as águas dos rios; só muito
mais tarde se aventuraria a enfrentar o desconhecido, na estrada
larga do mar.
Ensina Verger que o grito
com que se saúda a deusa – odô iyá! Significa "mãe do rio".
Reverencia, pois, uma divindade fluvial. Ainda segundo Verger, o
nome YEMANJÁ vem do iorubá yeyê ama ejá, "mãe cujos filhos são
peixes".
Em Cuba o nome permaneceu o
mesmo que o do rio africano onde a deusa nasceu. Por que, no
Brasil, ganhou um "n" após o primeiro "a", transformando-se em
Iemanjá? Simplesmente por uma certa tendência, em nossa língua, de
uma consoante nasal provocar o anasalamento da vogal
seguinte.
MÃE DOS
ORIXÁS?
Na África, as esculturas
com a efígie de Iemanjá mostram uma mulher de seios exuberantes,
símbolo de fecundidade. Essa opulência mamária, no entanto, não
justifica conhecido mito teogônico em que Iemanjá é apontada como a
mãe de todos os orixás.
Narra tal mito que da união
de Obatalá e Odudua nasceram Aganju, a terra firme, e Iemanjá, as
águas. Os dois irmãos também se unem e geram Orungã, o ar, o espaço
entre o céu e a terra.
Orungá apaixonou-se
perdidamente por sua mãe, Iemanjá. Um dia em que pai estava
ausente, ele a raptou, violou e propôs continuassem às ocultas o
amor incestuoso. Iemanjá, desesperada, desprende-se dos braços do
filho, mas ele a persegue. Quando o Édipo iorubano está prestes a
alcançá-la, Iemanjá cai morta, de costas. Dos seios enormes nascem
dois rios, que adiante se unem formando um lado, o lago Iemanjá. Do
ventre desmesurado, que se rompe, nascem os orixás: deuses das
atividades de subsistência, como Okô, da agricultura e Oxosse, da
caça; e Xangô, deus do trovão, Ogun, do ferro e das artes manuais,
Dadá, dos vegetais; e Olokun, do mar, Oloxá dos lagos, Okê, das
montanhas; e as deusas dos rios nigerianos Oxun e Oiá(Niger); e
Xankpanã, da varíola, Ajê-Kalagá, da saúde, Orun, o sol, Oxu, a
lua.
O mito, que não inclui Exu
e Ifá, duas divindades da mais alta importância, é contestado pela
autoridade de Pierre Verger, que afirma jamais tê-lo encontrado na
África. A história foi inventada por um missionário, o padre
R.P.Noel Baudin (1884) e teve a sua perpetuidade garantida pelo
ilustre coronel A B.Ellis, autor de um livro famoso. O mito,
repetido por Ellis, foi citado por Nina Rodrigues, com a ressalva,
porém, de que jamais o encontrou na Bahia, onde os negros que
professavam o culto iorubá ou declararam que o desconheciam ou
contestaram sua existência.
Em outra versão, contam que
Yemanjá é filha de Olokum, a Senhora dos Oceanos, e que foi casada
com um homem poderoso com quem teve dez filhos. Um dia, cansada de
sua permanência em Ifé, foge na direção oeste, levando consigo uma
garrafa que havia ganho certa vez de Olokun, contendo um misterioso
preparado, a qual ela deveria quebrar jogando ao chão quando
estivesse em perigo.
Iemanjá instalou-se em
Abeokutá (seria uma alusão à migração da nação Egbá). O marido
lança seu exército em busca de Iemanjá, com o objetivo de trazê-la
de volta a Ifé. Quando se vê cercada, ela não se entrega, mas segue
os conselhos de Olokum e quebra a garrafa.Imediatamente forma-se um
rio, que a leva para Okun, o mar, morada de
Olokum.
Deusa da foz dos rios e
quebra-mares, a rainha dos mares, como é conhecida, é ciumenta mas
não demonstra, preferindo aguardar a hora da revanche. É poderosa e
atraente e quando invocada por quem realmente a conhece, propicia
favores e ajudas inestimáveis.
Tem a grande capacidade da
mãe que sempre atende a um filho, que geralmente caracteriza-se por
ser pessoa voluntariosa.
A GRANDE FESTA DE
IEMANJÁ
Há sete Iemanjás, filhas de
Olokun, o mar, entre elas uma, guerreira, ligada a Ogun, outras a
Orumilá, a Oxun, às feiticeiras.
A efígie de Iemanjá é a da
segunda versão da sereia européia: uma linda mulher de longos
cabelos e seis desnudos, com a metade do corpo como cauda de peixe
(As sereias homéricas eram mulheres com corpo de
pássaro).
No candomblé, Iemanjá veste
saia rodada, bata de rendão, estola e, na cabeça, um gorro de pêlo
branco ou uma espécie de mitra. Do gorro ou da mitra pende uma
franja de contas, sobre o rosto. Iemanjá dança com movimentos que
imitam as ondas do mar.
O grande culto de Iemanjá,
no entanto, não é celebrado dentro do candomblé, mas lá fora, ao ar
livre. Rainha, sereia, mãe-d’água, ela é a deusa de "todas as
águas" da Bahia de Todos os Santos, cultuada em Amaralina e Itapoã,
no Dique e no Rio Vermelho, nos lados de Abaeté e nas pedras de
Monte-Serrate, e do outro lado, na ilha de
Itaparica.
No dia 2 de fevereiro, de
Nossa Senhora das Candeias (apesar da santa ser identificada como
Oxun, a festa é de Iemanjá), sai para o largo a grande e festiva
procissão marítima dos candomblés e do povo da Bahia. Tudo tem
início na Casa do Peso, assim chamada por ser aonde os pescadores
levam o peixe para ser pesado. A pequena edificação, num
promontório do Rio Vermelho, amanhece enfeitada com um arco de
folhas de coqueiro e bandeirinhas multicoloridas. Lá dentro, sob a
atenta e respeitosa vigilância de uma mãe-de-santo e de um
pai-de-santo, um grande balaio aguarda os presentes para Iemanjá.
Os crentes formam longa filha e, um a um, vão colocando no balaio
bilhetes para Janaína, pedindo ajuda em casos de amor e dinheiro,
na realização de sonhos e ambições; e depositam os presentes do seu
amor e da sua devoção – flores, perfumes, tecidos, rendas,
fitas, dinheiro, espelhos, pentes, sabonetes... presentes que a
deusa irá receber em alto mar. Inclusive animais vivos. Pois nada é
demais para ser dado a Iemanjá. Ela é a senhora do mar – a
que amaina a fúria das ondas, contorna os escolhos, impede que as
redes de pesca voltem vazias.
Perto da Casa do Peso
ressoam os atabaques, ritmando os cânticos sagrados. E há rodas de
samba e de capoeira. E uma verdadeira multidão. Chega, enfim, o
grande momento. A mãe e as filhas-de-santo saem com o grande balaio
repleto de oferendas, rumo ao barco que vai levá-lo à Rainha do
Mar. E logo parte a procissão dos saveiros e outras embarcações.
Num determinado ponto, em lugar bem fundo, o balaio é depositado
sobre as águas. Se o presente não afundar, é sinal de que não foi
aceito por Yemanjá. Mas ela sempre aceita, bondosa e compassiva,
sendo muito difícil que um presente para Janaína fique boiando
sobre as ondas.
Ante a expectativa geral,
os barcos regressam, com a alegre notícia de que a deusa recebeu de
bom grado as oferendas. Os atabaques ressoam mais festivos. Os
cânticos se elevam com mais exaltação e alegria. Iemanjá está em
paz com seus filhos e propiciará sejam todos os desejos
realizados.
YEMANJÁ NA
UMBANDA
A linha de Iemanjá governa as
legiões seguintes: Sereias (Oxun), Ondinas (Nanã Buruku), Caboclos
do Mar (Indaiá), Caboclos dos Rios (Iara), Marinheiros (Tarimá),
Calungas (Calunguinha) e Estrela Guia (Maria
Madalena).
Suas cores são o branco e o
azul. As oferendas a Iemanjá constam de flores de cor branca
– rosas, cravos, lírios, palmas-de-santa-rita –
perfumes, moedas de niquel, sabonete pequeno e outros agrados, que
são deixados na praia, junto do mar, ou colocados num barquinho,
que é solto nas ondas. A bebida das obrigações é champanhe,
frequentemente democratizada como cidra
espumante.
No Rio de Janeiro, a festa
de Iemanjá é celebrada a 15 de agosto, dia de Nossa Senhora da
Glória, com quem está identificada. Mas é na passagem do ano que se
realiza a gigantesca e impressionante comemoração popular de
Iemanjá, nas praias cariocas e fluminenses, o mesmo acontecendo em
Santos e em Porto Alegre. Os "filhos de fé", com suas roupas
brancas e colares de muitas cores, improvisam "terreiros" nas
praias – um círculo de flores fincadas na areia e velas
acesas e garrafas de bebidas e as comidas dos santos... Entoam-se
cânticos rituais, ao som dos atabaques. "Baixam" os santos, a
maioria Caboclos, que atendem as consultas dos crentes. O povo traz
presentes para Iemanjá, com braçadas de flores brancas. Soltam-se
no mar barquinhos com oferendas. Jogam-se moedas nas ondas,
propiciando um bom Ano Novo.
Até há poucos anos atrás,
as velas acesas se multiplicavam nas praias urbanas da Zona Sul
que, vistas a uma certa distância, davam a impressão de que as
estrelas haviam caído na areia. Era como se, à beira-mar, os
"terreiros" se sucedessem. Hoje, a noite de Iemanjá transformou-se
num show promovido pela TV e outros meios de comunicação, atraindo
grandes multidões, que se movimentam e comprimem em tumulto. Em
Copacabana, à meia noite, espetáculos pirotécnicos são realizados
por grandes hotéis e firmas comerciais. Sucedem-se por toda a
parte, perigosamente, os estouros ininterruptos de morteiros de
mão, acesos por populares. Então a gente dos "terreiros" foi
procurar praias mais distantes e tranqüilas, longe da curiosidade
divertida dos turistas e da fúria contínua dos estampidos. Foi em
busca de lugares mais propícios para cultuar Iemanjá, a rainha do
mar.
RITUAL DE
YEMANJÁ
Para ser abençoado pela rainha do
mar e atrair muito sucesso, vá até a praia num sábado e entregue
nas águas um barquinho de isopor contendo algumas maçãs, uvas, um
mamão, sete rosas brancas, um vidro de pergume de alfazema e um
espelho. Junto das oferendas, coloque um papel com todos seus
pedidos por escrito. Depois, abra uma champanhe e despeje o líquido
por todo seu corpo, enquanto repete seus pedidos em voz alta. Por
fim, lave-se nas águas do mar, acenda uma
vela.